sábado, 25 de setembro de 2010

Goodbye New York

Acordei hoje com este aperto no peito... a certeza de que a vida nos leva para onde precisa de levar, que agora é tempo de partir, mas a certeza também de que muito de mim fica nesta cidade. Foram 2 anos de vida... olho para trás e revejo-me em tantos tantos momentos que ficarão gravados em mim para sempre. Não foi fácil, nunca foi fácil. Mas também por isso é tão especial. Sinto dentro a serenidade que se sente quando se tem a certeza que se cumpriu mais uma etapa desta viagem. Quando se sabe que a nossa vida é agora muito maior, que a nossa alma está agora muito mais cheia. Não mudava nada. Não pedia mais do que tive.
Nova Iorque é uma cidade verdadeiramente especial. Há algo nestas ruas, nestes cheiros, nesta mistura de cores, e sabores, e gentes. Há uma magia especial que nos prende, que nos agarra ao primeiro segundo. É uma cidade dura. Há dias em que só queremos sair daqui, em que a confusão natural desta cidade toma conta de nós, em que procuramos um refúgio e não o encontramos. Mas há também outros dias em que nos enche dum modo sem igual. Em que sentimos que a vida é mais vida aqui, que os sonhos são maiores. Que fazemos parte desta cidade, e que somos as pessoas mais sortudas do mundo por isso. E depois as pessoas... as pessoas que deixo cá, as pessoas que levo comigo... Viver em Nova Iorque, trabalhar em Nova Iorque é como um "Big Brother". Passamos quase 24h sobre 24h com as mesmas pessoas, vivemos numa "casa" que não é a nossa, quase quase sem contacto com o nosso mundo real. As relações são vividas intensamente, as pessoas são vividas intensamente. Pouco a pouco criamos afectos que nem sabiamos serem tão intensos. Pouco a pouco agarramo-nos a estes estranhos que encontrámos nesta cidade, nesta aventura. E dói...dói sempre quando partimos.
Vou ter saudades de Nova Iorque... vou ter saudades de bagels, e paninis, e de cachorros quentes, e do central park, da 5th avenue, do soho, da west village, do bryant park...vou ter saudades do barulho da cidade ao longe quando me deito...vou ter saudades do brilho de NY, das luzes, dos sons, dos cheiros... vou ter saudades dos meus ratinhos, da minha bancada, dos posts nas garrafas de ethanol. Vou ter saudades do Hector, do Bruno, do Yutzie, da Selena, da Maureen, do Jared, do Till, da Ayuko, da Helene, da Laura, da Carla... e vou ter saudades de mim...
Há quase dois anos escrevia o primeiro post neste blog. Começava uma aventura que não fazia ideia onde me iria levar....
Agora escrevo o último post, a ultima pincelada deste quadro...
..Estou pronta para voltar a casa.

domingo, 5 de setembro de 2010

Mar

Sabia o mar de cor. Sabia cada pedra e concha e estrela do mar. Sabia as marés. Sabia as luas. Sabia o som da onda que quebra na areia e que não se repete. Tinha crescido a aprender o mar. Tinha crescido com ele ali à sua frente. Eterno. Presença constante que dá força nas manhãs duras, que afasta a solidão nas noites escuras. Tinha aprendido a olhar o mar. A olhar e ver o mar. E senti-lo. Senti-lo na alma como se fosse parte de si, como se aquelas ondas fossem o rodopio de si mesma. Tinha aprendido que o mundo todo ganha a sua verdadeira dimensão no silêncio que se ouve dentro de àgua. Que a paz é mais paz quando o mar nos abraça. E tinha aprendido o pôr-do-sol... esse momento magnifico em que os nossos sentidos se reduzem apenas ao da visão. O Momento que não tem som, nem cheiro, nem sabor, nem tacto...apenas se vê. O Momento que nos lembra que tudo tem um fim, que nos relembra que depois de um fim há sempre um principio, e que nos assegura que todo o fim pode ser infinitamente belo...
Tinha momentos à beira-mar gravados na alma. Tinha o som do mar na noite guardado em si. Tinha memórias de uma praia perfeita. Em que a felicidade era ali. A sua praia. Com o seu céu infinitamente azul. Com o seu mar, sempre revolto, sempre forte. Com o seu pôr-do-sol, sempre perfeito...

Esteve longe desse mar. A vida assim o quis. Acreditou que o mar viveria dentro dela. Acreditou que poderia ver um pôr-do-sol sempre que quisesse. Bastava fechar os olhos e recordar. Mas mais uma vez a vida ensinou-lhe diferente. Ensinou-lhe que as memórias só são suficientes para nos lembrar o quanto necessitamos de algo. Que as saudades só servem para nos fazer querer o reencontro. Que o mar não é eterno, não está sempre em nós. Está quando estamos naquela praia. Está quando o abraçamos. Está quando o ouvimos, e vemos e sentimos e somos.
Reencontrei o mar estes dias. E fui feliz.


quarta-feira, 7 de julho de 2010

A vida é feita de pequenas mortes...

“Não te vás embora…” Foram estas as últimas palavras que me disse. As palavras que ficaram, que continuam, que se repetem todos os dias, a cada momento. Não te vas embora, pediu-me. Com aquele olhar doce, sereno, aquele olhar que abarcava o mundo, e as estrelas, e todas as galáxias, e o universo inteiro… Talvez esse tenha sido o momento em que morri, a minha primeira morte. O momento em que a minha alma quebrou. Como continuar uma vida depois disto? Depois destas palavras, depois de ir, de não ficar. De ir porque tinha que ir. De não ficar, porque não podia ficar. Mas eu queria ficar. Queria tanto. Era ali que eu queria estar. Para sempre. Naquele olhar. No teu olhar. Como sobreviver a esta dor? Como acreditar que a vida pode continuar depois destas palavras? Tenho medo que por momentos tenhas duvidado que quisesse ficar. Que por momentos te tenhas sentido abandonada. Quando tu nunca nos abandonaste. Quando tu ficaste sempre. Quando a tua presença foi sempre. Única. Imutável. Estiveste connosco. Sempre. Até ao ultimo segundo. Ate ao ultimo suspiro. E continuaste. Continuas. Vives depois de tudo isto. Vives depois da morte, porque a morte não conseguira nunca levar as almas que são vida. Porque a morte não o é quando a vida é. E tu és a vida. Serás Sempre…
“Não te vás embora…” aquele olhar, aquele olhar que guardarei dentro até o meu se fechar. Aquele olhar que ainda hoje me quebra a alma, me deita ao chão, me desarma.
A vida é feita de pequenas mortes… ouvi esta frase hoje. Lembrei-me de ti. Lembrei-me da tua última frase. Lembrei-me de todas as vezes que já morri ao recordar estas palavras, as tuas palavras…
… Eu nunca me fui embora. Eu fiquei ali, naquele momento. A minha alma está lá. Junto a ti. Naquele momento em que a tua alma também ali estava. A minha alma está lá, naquele teu olhar, naquelas tuas palavras.
“Não te vás embora…” Não fui mamã. Estou aqui.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sometimes we lose little pieces of our soul...

Hoje perdi um bocadinho de mim. A vida assim o quis. A mesma vida que me deu o privilégio de te ter aqui comigo. A mesma vida que nos cruzou alguns anos atras... eu, a pequenina interninha do serviço. Tu, a interna senior, quase quase senhora especialista, que eu olhava e pensava: "um dia quando for grande quero ser assim". E os dias passaram, e a mesma vida que nos cruzou, descruzou-nos. Fui estagiar para fora e tu ficaste no nosso serviço. Até à minha volta, encontrar-te-ia na minha volta. Mas depois a vida mudou. E a minha volta não era já. Era um bocadinho mais à frente, porque antes ainda tinha que dar a volta ao mundo. Vim para longe, mas este longe era tão perto de ti. E uns meses depois chegavas tu. Lembro-me tão bem daquele primeiro abraço. Estavas cá. E esta Nova Iorque de repente sabia mais a casa. Encurtaste a distância entre aqui e o outro lado do mar. Trouxeste a certeza de que há coisas que só nós percebemos. Nós portuguesas, nós lisboetas, nós oncologistas. Trouxeste esta generosidade só tua, este teu sorriso que não conhece limites, esta simplicidade com que te dás, com que recebes. E os dias foram passando, e a vida, esta mesma vida que nos cruzou, descruzou e nos voltou a cruzar, esta vida foi vivida... e foram tantos os momentos..tantos...os almoços partilhados, os desabafos na salinha escura, as gargalhadas na bancada....as viagens no nosso businho (as saudades que eu vou ter das nossas viagens...), as horas de conversa à porta dos nossos prédios...as tardes de compras na quinta avenida, a noite no plaza, os sapatinhos trocados e destrocados... os chocolates, o japones, os hamburgueres e o yaffa caffe que nunca chegou a ser... tantos tantos momentos..e tantos tantos sentimentos... acreditámos, desacreditámos e voltámos a acreditar. descobrimos que o mundo não é todo cor-de-rosa como nos tinham feito crer até agora. mas decidimos também que queremos que o nosso mundo seja cor-de-rosa. tivemos coragem, fraquejámos. andámos para a frente, caimos, levantamo-nos. sonhámos, iludimo-nos, desiludimo-nos. rimos, chorámos. Demos e recebemos. estivemos lá. sempre. incondicionalmente. fomos. juntas. sempre juntas...
Hoje a vida descruzou-nos outra vez... esta vida, a que sabe quando e onde é o nosso lugar, leva-te agora para longe de mim... não queria, queria ter-te aqui pertinho, à distância duma vontade... mas sei que o teu lugar não é aqui, que esta aventura acabou, e que a tua vida passa agora por um outro lugar. Eu... eu ficarei deste lado só mais um bocadinho, nesta nova-iorque que é agora tão menos brilhante por já não te ter cá (sim, porque apesar do teu corpo ainda estar nesta cidade, a tua alma já está do outro lado do mar, onde o céu é sempre mais brilhante, e o mar está sempre mais perto)...
Espero o teu abraço à minha chegada, espero os nossos almoços, os nossos desabafos numa outra salinha escura dum hospital qualquer, espero as nossas gargalhadas numa noite de urgencia, as nossas tardes de compras, as horas interminaveis de conversa à porta de um prédio qualquer... os chocolates, o japones (prometo que vou contigo ao japones!)... espero a nossa vida!
Vou ter muitas muitas saudades tuas...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Love is never too much...

"...and you know my dear, Love is never too much..."
Lia aquela carta repetidamente e ficava sempre presa a esta ultima frase... as palavras que doiam, que pesavam, mas que nao conseguia deixar de ler.
Lia aquele pedaço de papel sentada ao fundo da sua cama, naquele quarto que um dia lhe tinha tambem pertencido.
Tinham-se conhecido ainda ela andava no secundário. Lembrava-se daquele dia como se fosse ontem, e já tantos outros dias tinham existido depois...
Tinha visto este rapaz pela primeira vez no corredor da cantina da sua escola. Mochila num ombro, cabelo loiro encaracolado, uns olhos azuis profundos...ar descontraido, como se o mundo lhe pertencesse e ele nem quisesse saber. E o sorriso, aquele sorriso que a tinha cativado ao primeiro olhar. Nunca tinha acreditado em amor à primeira vista. Mas tambem, quem falou em amor? Apenas um rapaz giro... e, afinal, quem sabe o que é o amor nessas idades?... Passou junto a ele e sorriu, mexendo timidamente no cabelo. Continuou o seu caminho. "Estranho nunca ter reparado nele. Devo andar mesmo distraida."- comentou com a sua amiga, recebendo um piscar de olho cumplice de volta. Nessa tarde saiu o portão da escola e dirigiu-se para a paragem de autocarro, como todos os dias fazia. Mais uma vez ali estava ele. Sorriu-lhe novamente. Recebeu outra vez aquele sorriso timido mas sincero de volta. O autocarro chegou. Entraram ambos, e ambos sairam na mesma paragem de autocarro. Seguiram pela mesma rua, já um bocadinho envergonhados. Ela parou à porta do seu predio. Ele parou tambem. Tinha-se mudado nesse mês para aquele prédio. Morava agora onde morava antes a D. Amélia, que coitadinha, tinha falecido uns meses antes. Sorriram um para o outro, desta vez com um sorriso aberto. Disseram timidamente os nomes, despediram-se e sorriram mais uma vez.
Começaram a encontrar-se frequentemente. Inicialmente porque o acaso assim os obrigava, depois porque começaram a construir o acaso. Tornaram-se melhores amigos. Os sorrisos deixaram de ser timidos. Os momentos acumulavam-se. Viviam, e quanto mais viviam mais queriam viver o outro. Ela cativou-o. Ele deixou-se cativar. Adorava o modo como ela mexia no cabelo, adorava quando ria tao alto que todos olhavam. Adorava aquela carteira pequenina, ja desbotada e gasta pelo tempo, mas que ela teimava em levar para todo o lado porque tinha sido oferta da sua avo. Adorava ir ao cinema com ela, adorava passear de mão dada, como se o mundo todo existisse apenas para testemunhar aquele amor... mas ninguem ama naquela idade, certo?
Os anos passaram, e aquela relação foi crescendo com eles. O que começou com um olhar fugidio, um sorriso discreto, tinha-se tornado agora num daqueles amores que ameça resgatar a eternidade. Anos mais tarde casaram. Tinham a certeza e não duvidavam de que este era o amor com que sempre tinham sonhado. Aquele dia foi o dia mais feliz das suas vidas. E à noite, antes de adormecer, ele abraçou-a num abraço eterno e disse "I Love you so much". " I Love you too much", respondeu-lhe ela.
Tinham uma vida perfeita. Ambos trabalhavam naquilo que sempre tinham ambicionado, tinham uma casa linda, familias maravilhosas, e tinham-se um ao outro. Todos os dias antes de adormecer trocavam as mesmas frases que tinham trocado na noite do seu casamento. Para que o mais importante nunca deixasse de ser dito. Para que nada ficasse por dizer.
Nesse dia ela chegou mais cedo a casa do trabalho. Abriu a porta e a casa pareceu-lhe mais vazia, como se alguem la tivesse entrado e tivesse roubado qualquer coisa preciosa. Correu todas as divisoes para ter a certeza que nao faltava nada. A porta não tinha qualquer sinal que tivesse sido forçada. "Estranho.", e abanou com a cabeça como que a recriminar aqueles pensamentos tão pouco sustentados. Quando foi de novo ao quarto reparou que tinha uma carta em cima da cama. Sentou-se em cima daquela colcha azul celeste, e abriu o envelope. Dizia:
" Lisboa, 27 de Setembro de 2009
Minha querida,
não sei por onde começar... Custa muito escrever-te esta carta, mas tinha que o fazer.
Quero que saibas que te amo, que sempre te amei, e não te deixei de amar. Foste o primeiro amor da minha vida, e o primeiro amor nunca morre. Mas foste tambem o meu primeiro ódio. Sim, hoje sei que te odiei. E por isso tenho que te pedir perdão. Por ter sentido estes sentimentos tão maus por ti, e por tos ter escondido todo este tempo. Desculpa-me. Acredita que durante muito tempo lutei contra eles. Achei que era este amor por ti que era tão grande que se transfigurava, e eu já não sabia o que era isto que sentia. Sabia apenas que era algo avassalador, imenso, arrebatador. E so ha dois sentimentos assim: o amor e o odio. So podia ser um desses dois.
Mas agora percebo... e é por isso que tenho de partir. Não te quero odiar. Quero apenas amar.te. Amar-te como te amei naquele primeiro momento em que os nossos olhares se cruzaram, lembras-te? Lembras-te de como nos sentimos? Lembras-te de durante muitos anos termos brincado porque naquelas idades não se sabe o que é o amor? Pois bem, eu agora acredito que aquele foi o unico momento em que realmente te amei. Em que realmente te entreguei a minha alma, sem medos, sem falsidades. O momento em que mais te amei foi quando ainda nao te conhecia. Depois... depois levaste-me. Agarraste na minha alma, e levaste-a para um sitio so teu. Não quis saber, deixei-me levar. Quis ir. Era nesse sitio que eu queria estar. Contigo. Tu. Tu foste sempre a unica coisa que importou no meu mundo. Este amor por ti, este amor louco, doentio. (Quando se ama assim, em que nao importa o que a outra pessoa faz, ou como é, o que diz, o que faz... qual é a diferença entre esse amor e a indiferença?Talvez nenhuma...) Quis construir uma vida a teu lado. Acreditei que ia dar a volta ao mundo nos teus braços, que ia viver dias e noites, e madrugadas e pores-do-sol, tudo ao teu lado. Tu, sempre tu. Tu como primeiro pensamento quando acordava. Tu nos meus braços antes de adormeceres. O teu corpo ao meu lado enquanto dormia. TU, TU, TU...
... comecei a odiar-te. Porque depois destes anos todos a minha alma continuava naquele sitio para onde a tinhas levado. Mas tu ja nao estavas la. Tu tinhas crescido, e aquele amor que tu tambem sentiste naquele primeiro instante, naquele instante em que amaste o meu sorriso, e o meu cabelo encaracolado e a minha mochila num ombro, esse amor tinha desaparecido. Esse amor imenso, incondicional, sem barreiras tinha-se tornado num amor com medidas. A tua frase todas as noites lembras-te? " I love you too much"... Como se fosse possivel amar-se demasiado. Como se o amor tivesse limites, ou medidas. Essa frase todas as noites a lembrar-me que tu ja nao estavas la, onde a minha alma tinha ficado. Comecei a odiar-te. Comecei a odiar-te na incapacidade de conseguir sentir por ti um sentimento menos que o amor..ou o odio. Se nao te podia amar, se tu nao me deixavas amar-te, entao so te podia odiar...
Comecei a odiar a maneira como mexes no cabelo. Comecei a sentir-me incomodado e envergonhado cada vez que te ris alto e poes toda a gente a olhar para ti. Ofereci-te uma carteira nova nos teus anos por ter começado a achar ridiculo andares com uma carteirinha tão feia e velha para todo o lado. Comecei a odiar ir ao cinema, e a minha mão já nao procurava a tua das poucas vezes que ainda iamos passear. mas tu não percebeste estes sinais... e eu muito menos. E quando percebi, já era tarde demais..já te odiava!
Sabes, as vezes gostava de poder voltar atras. De poder voltar aquele segundo, aquele momento unico em que as nossas almas se encontraram pela primeira vez, em que o nosso olhar encontrou o olhar do outro. Se pudesse voltar a esse momento sabes o que fazia? Nao entrava naquele autocarro contigo naquela tarde. A nossa vida deveria ter sido apenas aquele momento. Porque o nosso amor começou e acabou naquele olhar. A partir dai, foi sempre demais...
... and you know my dear, Love is never too much..."

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Learning to live

Se me perguntassem o que Nova Iorque tem de pior, não hesitaria na resposta: a inconstância dos afectos.
E nem falo na inconstância (ou na ausência) dos afectos deste povo. Não falo porque aprendi a respeitar estas diferenças culturais. E sim, é incrivel como depois destes anos todos, vivendo nós nesta "aldeia global", as diferenças que nos separam, europeus e americanos, ainda são abismais. Começa com a incapacidade do toque (experimentem cumprimentar um americano com dois beijinhos e vão perceber o que quero dizer), à superficialidade das conversas e vai até ao profundo desconhecimento do significado da amizade. Mas não é desta inconstância que vos falo, porque como disse antes, aprendi a aceitar estas diferenças, e aprendi a gostar deste povo como ele é... com as suas qualidades que são muitas, mas também com os seus defeitos.
A inconstância dos afectos a que me refiro não é a de um povo, mas de uma cidade. Em Nova Iorque tudo é fugidio, passageiro, transitório. Até, e sobretudo!, as pessoas, as relações. Todos estamos, estivemos ou vamos estar aqui de passagem. E talvez ainda bem. Porque assim há a rotação de gente necessária, torna possivel que mais pessoas possam experimentar esta cidade tão especial, possam vivê-la e senti-la, como eu tive a sorte de poder viver e sentir.
Mas nesta passagem, neste pedaço das nossas vidas que entregamos a esta cidade, entregamos tambem pedaços de nós a estranhos que partilham esta cidade connosco. E devagarinho, vamos criando afectos. Quase quase sem darmos por ela. Quase quase contra a nossa própria vontade. Porque também nós estamos cá de passagem, não permanentes, e tambem nós poupamos nestes afectos (como se fosse possivel poupar em afectos...).
Mas de mansinho, na correria destes dias, sem a nossa permissão, existem pessoas que nos vao cativando. Um sorriso primeiro, um abraço inesperado. O toque. O olhar. As palavras. A cumplicidade. A simplicidade dos afectos, que nesta cidade se torna tão mais preciosa, por ser tão rara. E depois, depois quando podemos chamar aquele estranho "amigo", depois quando já sentimos que temos um colinho em que podemos encostar a cabeça, quando sabemos que não precisamos de mais palavras para sermos percebidos (quando o silêncio diz tudo o que não precisamos dizer) depois o adeus... A lembrar-nos que tudo nesta cidade é fugaz. Que tudo desaparece. Que tudo pode acabar. E o olhar que falta, e a gargalhada que já não se ouve, a amizade que podia ter crescido tanto mais, e que ficou por momentos suspensa. A vida que ficou por momentos suspensa...
Nova Iorque é a vida em ponto pequeno.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mother's Day

Nesse dia saiu da faculdade mais cedo. Apesar de saber que tinha uma aula importante, que a matéria que o professor ia dar ia sair para a avaliaçao dai a 5 dias, apesar disso saiu.
Apanhou o autocarro na paragem à frente da faculdade. O trânsito, o medo de não conseguir chegar a tempo. Olhou para o relogio 5 vezes seguidas, como se o olhar tivesse o poder de abrandar o ritmo dos ponteiros. Finalmente o Arco do Cego ao fundo da rua. Ia conseguir. Sorriu.
Comprou o tão desejado bilhete. Entrou no autocarro e suspirou de alivio. Tinha conseguido. Abriu a carteira e viu que tinha tudo aquilo que precisava lá dentro. Não trazia mais bagagem nesse dia. Não era preciso.
O expresso saiu da grande cidade e entrou na auto-estrada rumo à sua cidade natal. Encostou a cabeça ao vidro e olhou para o mundo lá fora. Dentro de si tinha a certeza de que estava onde precisava de estar, que o seu presente era aquele. Um daqueles raros momentos em que se sente dentro que a vida está a acontecer como tem de acontecer. Um daqueles instantes em que sabemos que por um motivo ainda desconhecido para nós, aquele momento vai ficar gravado para sempre nas nossas vidas.
Quis fechar os olhos e descansar. Mas não conseguia. Tinha aquele nervoso miudinho da menina que vai para a escola no primeiro dia de aulas. Aquela hora e meia de viagem pareceu-lhe uma eternidade. Na sua cabeça passavam imagens da sua vida, de momentos partilhadas com a pessoa mais especial que algum dia tinha conhecido. Olhava pela janela, e recordava todos os dias em que tinha olhado pela janela com ela, em que juntas tinham construido castelos nas nuvens, tinham visto dragoes e princesas feitos de algodao doce no céu. Dias em que tinham dentro dum carro percorrido arco-iris, tinham olhado na mesma direcçao, visto o mesmo ceu azul, as mesmas estrelas, sentido o mesmo sol.
Sentia-se a pessoa mais sortuda do mundo por ter tido alguem nesta vida que sempre esteve do seu lado, incondicionalmente, eternamente. Alguem que lhe deu tudo e recebeu tudo, numa troca constante de quem sabe e tem a certeza de que a vida só vale a pena quando vivida assim, quando se dá e recebe tudo, quando já nao se sabe quando acaba uma alma e começa outra.
Sentia-se grata por ter tido uma tutora que lhe tenha mostrado a beleza da vida nas pequenas coisas, e nas grandes tambem. Que a tenha ensinado a amar, a sorrir, a chorar, a acreditar, a lutar..que lhe tenha ensinado que a vida só é vida quando vivida intensamente, apaixonadamente, como se cada segundo fosse o ultimo. Lembrou todos os abraços, todas as toalhas aquecidas à lareira trazidas para ela se limpar depois do banho nas noites frias. Lembrou todos os olhares de cumplicidades, todas as gargalhadas ouvidas a duas, todas as viagens. Lembrou-se da sua mão a acariciar os seus cabelos, do seu colo onde encostava a sua cabeça. Lembrou-se de a ter deitada ali na sua cama, no seu quarto, quando estudava pela noite dentro... aquela presença constante, inabalavel, a provar que o amor não é so um sentimento. É o gesto, a palavra, o olhar, o sorriso, o silêncio.
Finalmente chegou. Depois de uma curta viagem de carro, chegou a casa. Abriu a porta apressadamente, tirou de dentro da sua carteira um embrulho com um grande laço vermelho e correu para o quarto onde o sua viagem a tinha levado.
Sorriu, estendeu aquele embrulho que continha toda a sua vida e disse: " Feliz Dia da Mãe"
...aquele foi o ultimo Dia da Mae partilhado. O ultimo dia em que pôde oferecer uma prenda, em que se pôde oferecer a si. Não o trocaria por nada deste mundo. Não o faria em nada diferente
Às vezes temos a certeza e não duvidamos de que o nosso destino se está a realizar, em que o nosso lugar era ali e não noutro lugar qualquer. Eu tive essa certeza nesse dia...
...Para todas as mães, na terra ou no céu... Feliz Dia da Mãe!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Confissão

Meu Deus, perdoa-me!
Perdoa estes dias vazios, estas horas sem sentido. Perdoa todos os momentos em que te peço o inantigivel, em que te exijo o impossivel. Desculpa-me quando sou injusta, quando deixo a vida escapar pelos meus dedos, quando não consigo perceber o teu designio, os teus planos. Desculpa todos os momentos em que me arrependo das minhas decisoes, em que desejo recomeçar tudo de novo, em que troco o presente-presente pelo presente-futuro. Porque nestes momentos não acredito em Ti, duvido, temo. Não consigo acreditar que há um sentido, que todos temos um sentido, que Tu tens um sentido para todos, para mim.
Meu Deus, perdoa-me! Perdoa a minha fraqueza, a insensatez dos meus pensamentos e dos meus actos. Perdoa quando sinto compaixao por mim, quando sinto inveja da fortuna dos que me passam ao lado.
Deus meu, toma-me no teu colo e deixa-me repousar. Passa a tua mão imensa pelos meus finos cabelos, deixa-me chorar.
E depois, depois faz-me de novo acreditar....

sábado, 17 de abril de 2010

...há dias assim...

...às vezes gostava de ficar sozinha. fugir. para longe.
outras vezes não. outras vezes gostava de se sentir no meio da gente, de se sentir perdida na multidao, de nao ter um rosto, e de ao mesmo tempo se sentir tao unica no meio de tantos.
depois tinha dias assim... dias em que nao queria estar sozinha porque tinha medo da solidao, e em que nao queria estar no meio da multidao por se sentir ja tao perdida. e nao gostava de se sentir assim.
..às vezes queria desaparecer, tornar-se invisivel. Outras vezes queria que todos a notassem, queria sentir-se viva. às vezes queria dar a volta ao mundo, não ter tempo para dormir, viver cada segundo de cada dia. outras, queria apenas ficar deitada na cama, não ter segundos para viver, uma vida suspensa.
..há dias assim...dias em que a nossa própria existência pesa tanto que nos esmaga, em que nos sentimos tao incrivelmente vazios, insignificantes e pequeninos.
dias em que procuramos um colo e ele nao esta la, em que o nosso porto seguro esta distante, em que o nosso refugio esta em chamas...
..às vezes gostava de sorrir...hoje queria chorar...

quarta-feira, 31 de março de 2010

Alma a nu

Fecha os olhos...sim, agora. Mais logo não. Tem que ser agora. O mundo lá fora pode esperar. Fecha os olhos e ouve. Consegues ouvir? O barulho da vida que corre, o som da vida em ti, a tua vida. Ouve o bater do teu coração, sente o teu respirar...esta é a vida. Porque ela existe em ti. Não existe apenas lá fora, existe dentro de ti. E agora olha. Consegues ver? Consegues ver a tua alma, os teus sentimentos, a tua essência? Consegues ver todos aqueles que cruzaram a tua vida, todos aqueles que amaste? Aqueles que já partiram, e aqueles que continuam nos teus passos? E agora faz um esforço maior..e vê mais além..vê-te a ti naquele momento...há tantos tantos anos... sente o que sentiste nesse segundo que te moldou, que continua guardado no mais fundo de ti. Consegues ouvir a música que tocava na rádio? Consegues cheirar o perfume das flores? Consegues sentir o calor daquele sol que te aquecia? Agora mantém-te lá... só por um segundo. Eu sei que o tempo corre, e que o mundo lá fora espera por ti. Mas não vás ainda. Fica aí só mais um bocadinho...aí, de olhos fechados, com a tua alma a nu. Olha para dentro de ti outra vez..e sente aquilo que sentiste naquele momento. Sim, porque esse momento ainda continua dentro de ti. Eu bem sei que o tentaste apagar, que durante todos estes anos tentaste convencer-te de que tinha desaparecido de ti... Mas encontra-o. Ele continua ai. Revela-o novamente, olha para ele nos olhos..e vê-te nele. Vê a tristeza que te inundou a alma, sente as lágrimas que te sufocaram a voz. Desespera outra vez. Grita se precisares. Liberta a dor. Liberta. Liberta-te...
...E agora, devagarinho abre os olhos. Primeiro um, depois o outro. Respira fundo, e ouve o mundo, o teu mundo lá fora. E agora vai, segue o teu dia, enfrenta-o. Tu podes tudo. Porque tu conheces a dor, não temes nada. E sorri...

sexta-feira, 5 de março de 2010

Just an ordinary girl

“I’m just an ordinary girl…”
Era este o seu primeiro pensamento quando acordava, e a última frase que dizia a si própria antes de adormecer. Desde pequena que estas palavras a perseguiam, que a atormentavam como um fantasma... Nem sabia muito bem explicar o poder daquelas palavras. Apenas sabia que encerravam em si a sua vida. É, aquelas palavras eram o resumo da sua vida. Durante muitos anos tentou provar a si própria que não era “just an ordinary girl”, que não tinha uma vida vulgar. Não suportava a ideia de ser mais uma, de não ter trazido nada de novo a este mundo. E era por isso que todos os dias tentava mostrar a si própria que era mais que isso, que era diferente disso, que tinha superado isso... não conseguia definir o que era “isso”, e não, não tentava ser melhor do que os outros. Não era isso que a impulsionava..não era o desejo de ser melhor, mas o desejo de ser diferente, de marcar a vida das pessoas que a rodeavam, de não ser apenas mais uma...
...muitos anos passaram, e aquela frase continuava a persegui-la. Mas agora com o peso da resignação. Tinha desistido de tentar. Tinha desistido de querer. No fundo, era “just an ordinary girl”, com uma vida vulgar. Não havia nada que a distinguisse. Não era bonita, não era engraçada, não era inteligente, não tinha uma carreira brilhante...era mediana em tudo, normal...
Aquele dia começou como outro qualquer...o barulho ensurdecer do despertador, o estender do braço à procura do alarme para o desligar...e aquela frase na cabeça. Olhou para o relógio... já estava atrasada! Num pulo levantou-se, correu para o duche, vestiu-se rápido e saiu. Lá fora a cidade já há muito tinha acordado. As pessoas na rua encaminhavam-se rapidamente para os seus destinos. Quase em modo automatico. Poucas palavras se ouviam. Nenhuns sorrisos. Apenas o barulho dos motores dos carros, aqui e ali o som duma buzina menos paciente, o som das lojas a abrir. Uma manhã normal na grande cidade. “I’m just an ordinary girl in an ordinary world”.
Trabalhava num cafe no centro da cidade. Não era o seu sonho, nunca tinha sido. Mas aquela oportunidade tinha surgido há uns anos, quando precisava desesperadamente de dinheiro, e há muito se tinha acomodado aquela situação. E avaliando mais a fundo os seus motivos para continuar ali, havia naquele trabalho algo que a prendia. Todos os dias tinha oportunidade de se cruzar com pessoas diferentes, com vidas diferentes... havia alguns clientes que particularmente a fascinavam. Pessoas interessantes, com vidas diferentes, “not so ordinary”.. uns porque passavam ali todos os dias a caminho do trabalho, sempre a correr, sempre a falar ao telemovel, ou a escrever nos seu cadernos que transportavam com o cuidado com que se leva uma criança. Pessoas com trabalhos importantes, bem-sucedidos, reconhecidos pela sociedade como os melhores...não como ela. Ou então mulheres e homens bonitos, vindos da agencia de modelos que havia no prédio ao lado, que entravam no café e prendiam instantaneamente o olhar de todos, que traziam o belo àquele cafe já velho com a tinta das paredes a cair, que por momentos traziam o sol de verao para dentro daquelas quatro paredes. Ou ainda, e especialmente, o vizinho do predio da frente, que tinha um dia sido um actor famoso, agora já de bengala e cabelos brancos, que passava metade do dia sentado na mesma cadeira daquela mesma mesa de cafe, a contar as suas aventuras, as suas histórias... histórias de teatros, e viagens, e festas, e pessoas famosas, e aventuras, e desamores..paixões avassaladoras, mentiras e guerras... e ela pensava que era assim uma vida que queria ter tido. Uma vida daquelas. Qualquer uma. Menos a sua.
Nesse dia, o mesmo frenezim... a correria da manhã...os cafés para ajudar a cidade a acordar, para ajudar todas aquelas vidas tão especiais, tão extraordinarias, a serem vividas, intensamente, rapidamente, exaustivamente.
Nesse dia, o actor veio novamente. Por volta das 11h da manhã, como fazia todos os dias. Irritava-o a correria da manhã. Dizia que no tempo dele as pessoas não corriam assim, e que também viviam. Que ele nunca tinha corrido, e que tinha vivido tudo o que tinha a viver. Por isso não percebia aquela mocidade. E por não perceber, irritava-se. E por se irritar, evitava. E por evitar, só aparecia no cafe depois do render das guardas. Sentou-se na sua cadeira do costume, na sua mesa de sempre. Encostou a sua bengala na mesma posição de todos os dias e aguardou que a empregada lhe trouxesse o que não precisava já de pedir, por ser sempre igual. A empregada trouxe, e como de costume, sentou-se à sua mesa, com o brilho no olhar da criança que se vai deitar porque sabe que assim pode ouvir a história de encantar antes de adormecer. E aquelas eram verdadeiramente histórias de encantar.
Mas nesse dia o actor não actuou. Evitou o olhar da sua fã, e não pronunciou quaisquer palavras. E ali ficaram os dois em silêncio. Ela sem coragem para lhe pedir que contasse aquelas histórias que a faziam sonhar com uma vida diferente, que a faziam sentir-se menos vulgar. Ele sem coragem para lhe dizer a razão do seu silêncio.
Não arredou pé. Debaixo da mesa cruzava os dedos repetidamente, num gesto assumidamente de nervosismo, impaciencia e quase raiva. Será que aquele velho ainda não tinha percebido que as suas histórias lhe davam um motivo para continuar a sonhar o resto do dia? Será que ele não percebia o quanto aquelas histórias a marcavam, quanto a consolavam, quanto eram importantes para sobreviver mais um dia?
O actor continuava a olhar pela janela para as ruas daquela cidade que sabia de cor. Por dentro sorria, por ter ali a companhia daquela mulher, que sem lhe pedir nada em troca, tinha tornado os seus dias mais suportáveis naqueles ultimos anos. Nunca tinha tido ninguem que lhe desse aquela atenção sem nenhum motivo em particular. Desde que se lembrava de ser gente, que todas as suas relaçoes tinham tido por base segundas intenções. Primeiro por pertencer a uma familia com posses, depois por ser um rapaz elegante e influente na alta sociedade daquela cidade, e depois por se ter tornado famoso e conhecer todas as pessoas importantes no mundo do espectaculo. A sua vida tinha sido repleta de falsidades, mentiras, aparências e traições. E agora ali estava ela... uma rapariga nova, elegante, com o sorriso mais lindo que ele tinha visto em toda a sua vida, sentada à sua mesa, só para o ouvir...
Tinha ido no dia anterior à urgência. Não se andava a sentir muito bem nos últimos dias. Depois de lhe terem feito uma bateria de exames, o médico informou-o da necessidade de ficar internado. O seu coração estava fraco, precisava de optimizar terapêutica e ficar sob vigilância. O actor assinou a sua alta. Não queria morrer no hospital, sozinho. Sabia que era altura de partir, e não queria partir sem ver mais uma vez a unica pessoa que tinha realmente dado sentido à sua vida. Voltou para casa deitou-se na cama e esperou pela manhã seguinte. Só pedia a Deus que não o levasse antes de a voltar a ver. “Antes das 11h da manhã não. Deixa-me ficar aqui só mais um bocadinho..” repetia baixinho deitado na sua cama, enquanto uma lágrima escorria devagarinho pela sua face cansada da vida...
...O actor tomou o ultimo gole da sua meia de leite. Limpou cuidadosamente os labios, dobrou meticulosamente o pano e pouso-o em cima da mesa. Agarrou na sua bengala, olhou pela janela, e sem nunca cruzar o olhar com aquela mulher que tinha sido a sua companhia diaria naqueles ultimos anos, que tinha marcado eternamente a sua vida, disse: “Chegou a hora da cortina encerrar. Não me arrependo de nada. Apenas de não ter tido uma vida mais vulgar”
E saiu... passado pouco tempo a ambulancia chegou. A empregada soube depois que uma vizinha quando entrou no predio tinha encontrado o actor caido no chão e chamou a ambulancia. Não tinha chegado a tempo, e o óbito foi confirmado no local...
A empregada pediu licença à patroa e voltou para casa mais cedo nesse dia...sentia que a sua vida se tinha tornado naquele momento mais vazia, menos brilhante... “I’m just an ordinary girl...” repetia ela vezes sem conta enquanto limpava as lagrimas que teimavam em cair sem parar no seu caminho de volta a casa naquela noite…
... Na secretária do actor ficou uma folha de papel dobrada. Nunca ninguem reparou nela, nunca foi lida. Dizia:
“She’s the most extraordinary girl..”

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Good Morning

Amanhecer...
..hoje acordei eram 6h da manhã...tive um daqueles sonhos maus, que nos expulsam do reino encantado, que nos empurram de volta para o mundo real... dei voltas e mais voltas naquela cama... os minutos transformaram-se em horas... e passado aquilo que me pareceu uma eternidade, o dia começou a nascer...levantei-me e olhei pela janela...e pela primeira vez desde que estou em nova iorque vim o nascer do sol... vi aquela bola laranja a levantar-se devagarinho do horizonte, a espreguiçar-se e a dizer bom dia, a espelhar o seu brilho nas aguas de um rio, a iluminar de novo o mundo, a trazer de novo a vida...
... a esperança de um novo dia, a incerteza do que me reserva, mas a certeza de que sou uma privilegiada por ter mais um nascer do sol...
..e a certeza de que depois de uma noite, há sempre um novo dia, a certeza de que ha sempre um amanhecer...
...podemos é estar a dormir e não o ver...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Night

Respirar fundo...fechar os olhos...decidir. voltar atrás, dizer que não, pensar... voltar a decidir. desacreditar e voltar a acreditar. Cair no abismo que há dentro de nós, e logo a seguir voltar a ver a luz. chorar... sorrir... gritar de raiva, gritar de amor, gritar de solidão. calar...calar porque já não temos voz, calar porque não sabemos as palavras, calar porque dói.. o vazio. e logo a seguir um turbilhão de pensamentos, de sentimentos. o medo...e a coragem.. querer parar, sabendo que não há razão para parar porque o que queremos mesmo é fugir. não ter coragem para andar. ficar. não ter coragem para ficar. não ter coragem para desistir. e sonhar... e voltar a acreditar. e voltar a respirar fundo, a fechar os olhos... não decidir. escolher não decidir. por esta noite não... por esta noite apenas isto...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A casa de charutos

Na 1st avenue com a 71st existe uma casinha de charutos... quase todos os dias passo por ela a caminho do trabalho, mas nem sempre reparo que está lá.. ou porque vou entretida a falar com os meus botões, ou porque vou a tagarelar com a Maria Rita, ou simplesmente porque o cheiro de charuto nesse dia não é tão forte ou não é "o" cheiro, aquele que consigo distinguir entre todos os cheiros de charuto do mundo...
... mas hoje não foi um desses dias. Hoje quando passei por esta casinha pequenina, perdida numa rua de Nova Iorque, hoje reparei que ela estava lá... aquele cheiro que sei de cor estava ali! E, num segundo, fui transportada para muito muito longe... viajei no tempo...e vi o Eduardo sentado no sofá, com a sua camisa e as suas calças de tecido, os seus óculos de massa grossa...e o seu charuto na mão... ouvi de novo a Vera e o Eduardo a cantarem, vi-os de novo a dançar, senti de novo aquele amor que sempre admirei tanto...encantei-me com as suas histórias, com as suas aventuras, com uma vida tão cheia de tanto... de novo, estava ali... eu pequenina, com uma vida inteira pela frente, cheia de sonhos... e ele, velhinho, com uma vida inteira já passada, cheio de memórias...
e estas duas vidas, em tantos aspectos diametralmente opostas, estas duas vidas cruzaram-se algures no tempo... e estas duas vidas foram partilhadas, sentidas...amadas...
It was a real privilege to meet you Sir...
... os nossos refúgios podem estar onde menos esperamos... numa casinha de charutos por exemplo....

sábado, 16 de janeiro de 2010

Childhood...

Aqui estou de volta...em Nova Iorque...a tantos quilometros de mim...
...as voltas que a vida dá hein? Quem diria que aquela catraia de Picassinos, aquela pequenina de sorriso sempre nos lábios, ia um dia voar até ao outro lado do mundo...como imaginaria eu pequenina, que quando olhava para o horizonte, à procura sempre de mais, que era para o meu futuro que olhava?
Esta menina cresceu... e hoje especialmente sinto saudades dessa infância distante ...saudades de tanta coisa... saudades de brincar na areia, saudades de brincar no pátio de minha casa com os chinelos do meu irmão crescido e com a bola do meu outra irmão crescido...e de cair por ter tropeçado nos chinelos enquanto tentava com a bola fazer os truques que admirava no meu irmao...e de ao cair de ter chorado...e da minha mãe vir em meu auxilio...e de me levantar...e de eu sentir que tudo estava bem porque ela estava ali....
tenho saudades de ir à praia com a minha irmã-anjo...tenho saudades de ver o pôr-do-sol com ela, de aprender a amar cada segundo do nosso pôr-do-sol (sabes mana, nunca mais vim um por-do-sol como os nossos...porque roubaste ao sol esse brilho, porque o levaste contigo??)...
tenho saudades do chá-das-cinco...tenho saudades daquelas mãos tortuosas a agarrarem as minhas mãos pequeninas, tenho saudades daqueles olhos azuis pequeninos a sorrirem....tenho tantas saudades das palavras...

..tenho saudades das pessoas que a vida arrancou de mim..dos momentos não repetidos, dos momentos nunca vividos... e tenho saudades de mim, da ingenuidade com que acreditava que ia mudar o mundo, tenho saudades da certeza de um novo dia quando me deitava, tenho saudades de acreditar...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Até já!!...

Já está quase, quase, quase...
Só falta segunda, terça, quarta e quinta...e depois.....voar até casa!!!
Queria fechar os olhos esta noite e quando os voltasse a abrir já estar ai, juntinho a todos vós, a cantar o jingle bells a plenos pulmões...Sim, para os ouvidos mais sensiveis, é bom que comprem uns tampõezinhos ou coisa parecida.Porque vão ter que levar comigo e com a minha bela voz!!!
Está quase, quase, quase....
Até já!!!!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

MERRY CHRISTMASSSSSSSSSS!!!

Adoro o natal...sempre adorei! Adoro as àrvores de natal, os presepios, os enfeites nas ruas, os enfeites nas casas, as luzes...adoro as musiquinhas de natal, as decoraçoes nas lojas, a correria nos ultimos dias, as escolhas das prendas... adoro os rituais... adoro a familia toda à volta da mesa, os sapatinhos à volta da lareira, o acordar cedinho e ver os sapatinhos cheios de prendas... adoro o pratinho com a filhós para o pai natal, adoro as fatias douradas de manhã...adoro estar de pijama a abrir os presentes, a ver as pessoas que mais amo a abrirem as suas prendas.... adoro a sensação de calma na tarde do dia de natal, como se nesse dia não houvesse pressa, nada lá fora para onde ir...
... este ano voltei a redescobrir o natal...não sei se será por estar longe de casa, ou se é por estar numa cidade como nova-iorque (com a àrvore de natal no rockefeller, as rocketes, as lojas cheias de natal...com musicas de natal ate nas carrinhas de pita-shoarma...não há espirito de natal mais distraido que resista!..)... não sei se é porque este ano natal significa voltar a casa... só sei que me sinto como quando tinha 5 anos..com aquele nervosinho, aquela ansiedade, aquele brilhinho nos olhos quando oiço a palavra natal...
Adoro o natal... não sei porque gosto tanto... só sei que gosto, que me faz sentir criança outra vez...que me faz ter vontade de andar aos pulinhos o dia todo, a cantarolar as musiquinhas mais tontas de natal (incluinho o "we wish you a merry christmas, we wish you...")... faz-me ter vontade de ser feliz todos os dias...e afinal não é isso o Natal? o voltar a acreditar? o voltar a ter esperança que tudo vai ser melhor? que afinal o mundo pode ser um sitio melhor?... que afinal podemos ser felizes todos os dias?...
Feliz Natal!!!
E até já!... ;)

sábado, 28 de novembro de 2009

Thanksgiving Day in NYC

O meu primeiro Thanksgiving...
...mais uma daquelas experiências para a vida!!
Estes americanos sabem mesmo fazer estas coisas... sabem mover massas, sabem incentivar o patriotismo, a sensaçao (verdadeira ou nao, nao sei) de segurança, de felicidade...de que de facto somos todos uns sortudos por vivermos numa cidade como nova iorque, num pais como os EUA....e isto tudo apenas com uma parade e uns baloezinhos...
Quem me dera que Portugal também tivesse assim um dia...em que durante 24h todos se esquecem da crise económica, do clube que perdeu o ultimo jogo, ou do chefe que é um chato... e todos se sentem felizes..e dão graças pelo que têm...
Happy Thanksgiving!!!


É oficial... it's Christmas time!!!! ;))))



Olha as estrunfinas e o estrunfinho gigante!!!!


Com direito a banda e tudo!!!


E com direito a Pai Natal.... "BELIEVE"... I couldn't say better...

Ok, ok... acho que fui apanhada...mas a culpa não foi minha!!!A Maria Rita é que me obrigou!! Alias, estes sacos todos são dela!!! ;))))
Ps- reparem no pormenor da arvore de natal com as camisolinhas... não é linda???









terça-feira, 24 de novembro de 2009

O que me move...

Lembro-me de ser pequenina... e de estar à lareira com a cabeça no colo da minha mãe...e de olhar para as labaredas...e de me maravilhar com a inquietude daquelas chamas...que ora apareciam, ora logo de seguida se dissipavam, para depois aparecerem novamente...lembro-me de pensar que era mais lógico e eficaz se as labaredas permanecessem constantes, que enquanto despareciam e apareciam, não aqueciam tanto...
Lembro-me de estar na praia, e de olhar a imensidão do nosso mar...e de ver as ondas a virem e a quebrarem na areia, para logo a seguir esta agua voltar a mergulhar no mar, e de novo ondas se formarem, e de novo quebrarem na areia... e lembro-me de pensar que aquela vida curta de cada onda, que de nada valia...que eram segundos apenas...que logo desaparecia...
E lembro-me de ser mais crescida, e de estar no jardim de casa da Inês, deitada sobre a relva e de olhos colados ao céu, à espera daquele segundo em que uma estrela-cadente cruzasse aquele céu escuro... e lembro-me de pensar em todos os outros pedaços de céu iluminado que ninguem vê?que percorrem a galáxia, à espera de um segundo apenas em que a sua existência ganhe significado, e que logo desaparecem...existências que ninguem sabe...
E eu... o que me move? Será a inquietude das chamas? Ou a consciência de que a minha vida é tão curta quanto a de uma onda? Ou o desejo de que a minha existência ganhe significado naquele segundo eterno em que cruzar o céu de alguem...?
E a ti, o que te move?....

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

My kingdom...

Era uma vez uma princesa de olhos cor-de-mel. Uma princesa que viva num pais encantado, onde o ceu era sempre azul, onde o mar nunca estava longe, onde o por-de-sol era sempre brilhante. A princesa acreditava que o mundo era todo assim, porque o mundo dela assim o era. Um dia, decidiu partir no seu cavalo...despediu-se do seu castelo, do seu reino, e partiu... sabia que tinha de ir, que a sua vida passaria por aquilo (fosse o que fosse o "aquilo"). Não sabia o que a impulsionava, não sabia se ia conseguir (talvez fosse o medo de nao conseguir que a fazia partir...), mas sabia que tinha que ir. Cavalgou durantes 100 dias e 100 noites, sem nunca olhar para tras...minto. Olhou uma vez, mas a dor que sentiu dentro do seu coraçaozinho foi tao grande, que prometeu a ela propria que nao voltava a olhar para o seu reino...somente no dia em que retornasse a casa...
Depois da grande viagem, a princesa chegou a um reino ainda mais belo que o seu... onde o ceu era mais azul, onde o mar era mais perto, e o por-de-sol mais brilhante. A princesa quis tomar aquele reino como dela, e por momentos deixou-se apaixonar por aquele novo paraiso. Rendeu-se aos seus encantos, deixou que aquele reino a tomasse como dele. Conheceu novas cores, novos sons, novos cheiros...conheceu pessoas deste novo reino, pessoas que pareciam tao felizes quanto as do seu... Caminhou pela praia, subiu aos montes mais altos, banhou-se nas aguas deste novo mar... Mas dentro de si havia sempre um vazio...um vazio que nao conseguia perceber, e que tentava esquecer...
..e passaram 1000 dias e 1000 noites.... e um dia, um dia a princesa ganhou coragem e voltou a olhar para o seu reino... fechou os olhos, e voltou a ver o seu ceu azul (que nunca lhe tinha parecido tao azul), e o seu mar (que nunca lhe pareceu tao perto)...e o seu por-de-sol (que nunca tinha sido tao brilhante)....
e nesse dia a princesa chorou....